
Os ciganos constituem povos diversos, com identidades, tradições e modos de vida próprios, que preservam uma rica herança cultural apesar dos séculos de exclusão social e intolerância. Reconhecer essa trajetória é essencial para combater estereótipos e promover uma visão mais humana, plural e respeitosa sobre essas comunidades.
Bandeira cigana
Durante séculos, os povos ciganos, também conhecidos como roma ou romani, foram perseguidos devido a pressões políticas, conflitos internos e pressões religiosas europeias; expulsos de territórios; vítimas de discriminação e vistos com desconfiança ao redor do mundo por sua língua, costumes e comunidades unidas. Eles possuem uma história marcada por migração, resistência cultural, identidade e preconceitos. Em muitos países, sofreram restrições sociais apenas por manterem um modo de vida diferente dos padrões estabelecidos pela sociedade. Foram expulsos de diversos territórios, proibidos de falar a língua e associados injustamente à criminalidade e à marginalidade.
Na Segunda Guerra Mundial, os ciganos foram alvos de genocídio pelo regime nazista, no evento conhecido como Porajmos (ou holocausto cigano). Mesmo diante dessas dificuldades, conseguiram preservar valores importantes, como a união familiar, o respeito aos mais velhos, a tradição oral e a liberdade como elemento central de sua identidade.
A cultura cigana é rica. A música, a dança e as celebrações representam formas de expressão e resistência cultural transmitidas entre gerações. O conhecimento oral sempre desempenhou um papel fundamental dentro dessas comunidades, mantendo vivas histórias, ensinamentos e tradições ancestrais. Além disso, muitas famílias desenvolveram atividades ligadas ao comércio, à arte e ao artesanato, contribuindo culturalmente para os lugares onde se estabeleceram.
Mais do que falar sobre passado, compreender a realidade desses povos é refletir sobre identidade, pertencimento e direitos humanos. Esta reportagem busca dar voz às histórias, tradições e desafios enfrentados pelas comunidades ciganas, mostrando que sua cultura permanece viva através da resistência, da memória e da luta por reconhecimento em uma sociedade que ainda precisa aprender a conviver com as diferenças.
Preservação de uma identidade histórica e cultural
Originários no Noroeste da Índia, os romani sofreram diversas perseguições e diásporas, que resultaram em múltiplas etnicidades existentes espalhadas nos continentes e países que historicamente contam com a sua presença. Ao longo desse percurso, diferentes grupos se formaram pela Europa, como os Rom, Calon e Sinti, cada um com sua própria identidade cultural e linguística.
No Brasil, os primeiros registros da chegada dos povos ciganos datam do período colonial. Eles desembarcaram não por imigração espontânea, mas como degredados. O governo português e a Inquisição os deportaram como forma de punição por crimes e para afastar grupos considerados indesejados da metrópole. Atualmente, comunidades ciganas estão presentes em várias regiões do país e enfrentam desafios relacionados ao acesso à educação, saúde, moradia e combate ao preconceito. Segundo Nicolas Ramanush, escritor, educador e fundador da Embaixada Cigana do Brasil, a maior taxa de analfabetismo, vêm de pessoas que ainda vivem à margem da sociedade por não possuírem documentos básicos, como identidade e registro civil, derivam do grupo Calon.
Mesmo diante da discriminação, os povos romani preservaram tradições culturais ricas, como a música, a dança, o comércio itinerente, a oralidade e fortes vínculos familiares. As primeiras apresentações artísticas ciganas, em solo brasileiro, ocorreram em festividades oficiais nas cidades coloniais. Através desses espetáculos, eles carregavam linguagens corporais e gestos performáticos. A tradição circense também é um legado da cultura cigana desses tempos coloniais. Os primeiros espetáculos circenses em praças públicas no Brasil chegaram com os povos ciganos, tornando-se frequentes no século XVIII. As apresentações eram preparadas de acordo com o local e a data festiva onde o circo se instalava. De acordo com Ramanush, existem várias influências culturais ao redor do mundo, como na literatura, na dança, na cultura popular e no MPB.
Séculos de estigma: a origem dos estereótipos
Desde a chegada dos povos romani à Europa, por volta do século XIV, suas diferenças linguísticas, costumes próprios e modo de vida itinerante, despertaram desconfiança nas sociedades europeias. Em um período marcado pela forte influência religiosa e pela formação dos Estados nacionais, grupos que não se encaixavam nos padrões sociais e religiosos dominantes, passaram a ser vistos como ameaça à ordem pública.
Sem compreender a origem ou a cultura dos povos ciganos, muitos europeus criaram interpretações equivocadas sobre eles. O próprio termo “cigano” deriva da palavra “egípcio”, já que durante muito tempo acreditava-se, erroneamente, que esses povos vinham do Egito. A falta de conhecimento sobre sua verdadeira origem favoreceu o surgimento de lendas e associações negativas, que os retratavam como misteriosos, enganadores, amaldiçoados ou perigosos. Essas imagens foram reforçadas por leis que perseguiam comunidades ciganas, proibiam sua circulação e marginalizavam seus costumes.
Ao longo dos séculos XV e XVI, diversos reinos europeus aprovaram leis que expulsavam, proibiam ou criminalizavam a presença romani. Em muitos países, esses povos eram impedidos de possuir terras, exercer determinadas profissões ou circular livremente. Em alguns casos, foram até submetidos à escravidão, como o ocorrido nas regiões da atual Romênia, onde comunidades ciganas permaneceram escravizadas por cerca de cinco séculos. A perseguição também tinha forte caráter religioso. Durante a Inquisição, práticas culturais, línguas e tradições ciganas eram vistas como suspeitas ou associadas à feitiçaria e ao ocultismo.
Essas perseguições contribuíram para consolidar estereótipos que atravessaram gerações. A ideia de que seriam “trapaceiros”, “nômades por escolha”, “amaldiçoadores”, “místicos” ou naturalmente ligados à criminalidade foi difundida por discursos políticos, pela literatura e mais tarde, pelos meios de comunicação.
Muitas dessas representações ignoravam o fato de que o nomadismo de diversos grupos não era apenas uma tradição cultural, mas também consequência das expulsões e proibições impostas pelos governos europeus.
No século XX, o preconceito atingiu um de seus momentos mais violentos durante o regime nazista, considerados racialmente inferiores, milhares de ciganos foram perseguidos, deportados e assassinados em campos de concentração, no Porajmos. Apesar disso, essa parte da história permaneceu durante muito tempo, invisibilizada nos debates históricos e educacionais, contribuindo para a continuidade da marginalização cigana mesmo após a Segunda Guerra Mundial.
No Brasil, o preconceito também possui raízes históricas profundas. Os primeiros ciganos chegaram ao território colonial como degredados, enviados pela Coroa Portuguesa e desde então, foram frequentemente associados à desordem social, ao roubo e à marginalidade. Ao longo dos séculos, políticas públicas insuficientes, falta de reconhecimento institucional e ausência de representatividade reforçaram a exclusão social dessas comunidades.
Além das perseguições oficiais, a construção do preconceito foi fortalecida e enraizada pelas representações culturais e midiáticas. Filmes, novelas, livros e programas de televisão frequentemente retratam os povos ciganos de maneira caricata, reforçando imagens exóticas e estigmatizadas. Personagens ligados à leitura de mãos, maldições, sedução ou criminalidade passaram a ocupar o imaginário popular, dificultando que a sociedade enxergasse os povos ciganos em sua diversidade real. Dessa forma, os estereótipos atribuídos a eles não são apenas opiniões individuais, mas resultado de uma construção histórica marcada pela exclusão, pela desinformação e pela repetição de representações negativas.
Os meios de comunicação e a atribuição de rótulos
Desde a criação da TV, imagens preconcebidas de diversos grupos, etnias e culturas foram sendo reforçadas. E isso não foi diferente com os povos ciganos: as mais diversas mídias exploraram os rótulos acerca dessas comunidades, incluindo roupas, comportamentos, tradições, entre outros, o que permitia que os telespectadores desconsiderassem as diferenças dentro de cada povo ou indivíduo cigano.
Um dos traços mais explorados é a aparência. As roupas sempre parecidas e com cores vibrantes, mulheres com ombros à mostra e muitos acessórios. Esmeralda, do filme infantil “Corcunda de Notre Dame”, é a materialização disso, o que contribui desde muito cedo na vida das pessoas para a ideia fixa do jeito de parecer cigano. Outro tipo de estereótipo está na novela “Além da Ilusão”, com Yanko e Lyra. Eles, como está no imaginário da sociedade em geral à respeito dos ciganos, liam mãos e viam o destino dos moradores da região. Inclusive, essa é uma característica presente na maioria das mídias com personagens ciganos.
Mas o estigma não está limitado somente ao audiovisual: o livro “A Maldição do Cigano”, de Stephen King, mais uma vez adiciona uma aura mística e malévola a eles, ao criar um personagem que amaldiçoa, por vingança, o protagonista, fazendo-o emagrecer até que vire um “feixe de ossos”. E nem mesmo os clássicos escapam disso! Quem nunca leu o famoso trecho de Machado de Assis sobre Capitu, “[...] olhos de cigana obliqua e dissimulada”, em “Dom Casmurro”?
Outro exemplo mais recente da utilização da realidade desses povos na mídia é o reality show “Meu Grande Casamento Cigano”. A produção tenta mostrar a realidade das pessoas ciganas estadunidenses. Apesar do nome, ela vai além de casamentos, e apresenta diversos aspectos de suas vidas. No entanto, alguns telespectadores acreditam que o reality é uma espetacularização dos estereótipos.
Produções culturais podem abordar os povos ciganos sem recorrer à pré-conceitos ou estereótipos. A partir do momento em que obras contam com a participação ou consultoria de pessoas pertencentes à identidade representada, a tendência é que apresentem menos equívocos e maior aprovação da própria comunidade.
Um exemplo disso foi o desfile da Escola de Samba Pérola Negra no carnaval 2020. Com o enredo “Bartali Tcherain: A estrela cigana brilha na Pérola Negra”, a agremiação da Vila Madalena levou ao Sambódromo do Anhembi mais de 2.000 componentes, 23 alas e 5 alegorias inspiradas em elementos da cultura romani. O desfile também contou com a presença de ciganos de sangue e reverenciou a Santa Sara Kali no último setor da apresentação. A padroeira dos povos ciganos foi mencionada, inclusive, no samba-enredo interpretado por Daniel Collette: “Olhai por nós, ó Santa Sara, olhai por nós…”.
Outra produção que representa o que é ser cigano é o documentário “Terra de Ciganos”, dirigido por Naji Sidk, que busca explorar o cotidiano de diversas comunidades ciganas existentes no Brasil, mostrando a preservação de suas tradições, e ao mesmo tempo, a integração deles a sociedade brasileira. Narrada por Nicolas Ramanush, a lenda da origem dos ciganos – considerada a mais importante para o grupo Sinti-Manush – é apresentada na abertura do longa, Presente nas grandes telas de cinema em 2024, o longa conta com a consultoria cultural e atuação de Nicolas e Ingrid, que interpretam a si mesmos.
A melhor maneira de representar a cultura cigana é explorar as diversidades e diferenças que cada povo possui, além de realizar pesquisas aprofundadas para estruturar seus personagens. Conversar com pessoas que são de fato ciganas e respeitar suas verdadeiras culturas é o primeiro passo para uma produção responsável e sem estigmas.
Hátila Porto, a voz da conscientização
Hátila Porto, estudante de direito e cigana da etnia calon, utiliza as redes sociais como ferramenta de conscientização e valorização da cultura cigana. Aos 13 anos, começou a publicar vídeos sobre maquiagem na internet, ainda sem ligação com a temática que marca o seu perfil atualmente. Em 2020, passou a produzir conteúdos voltados aos povos ciganos, ao ser incentivada por uma cigana mais velha.
Mesmo antes de tratar o tema publicamente, Hátila sempre abordava a questão dos ciganos, e demonstrava indignação ao ver a ausência de informações em aulas, trabalhos e materiais didáticos. “Os ciganos eram excluídos dentro dessas aulas, que eram de grande importância, onde os ciganos também deveriam estar incluídos nessa tríade de povos que formaram o Brasil, de povos que são um pilar do Brasil, tendo em vista que os ciganos também fazem parte.”
Com mais de 21 mil seguidores no Instagram (@hatilaporto_), a criadora de conteúdo produz vídeos que desmistificam mitos, apresentam curiosidades e promovem reflexões sobre preconceito e apropriação cultural. Em entrevista ao Desmidificando, Hátila falou sobre a presença cigana no Brasil, os desafios enfrentados e a diversidade cultural entre os diferentes grupos étnicos.
Desmidificando
Como preservar a cultura cigana nos dias atuais?
Hátila Porto
Eu acredito que a melhor forma é repassar o conhecimento que nós temos às crianças que estão vindo por aí. A cultura só vai se dispersar se os valores e princípios não forem repassados. A melhor forma é repassar o conhecimento que nós temos, é sempre manter em constância o dialeto sendo falado no dia a dia e, principalmente, a nossa cultura e tradição serem preservadas..
Desmidificando
Como explicar a diversidade dos povos ciganos para quem acredita que exista apenas um modo de viver cigano?
Hátila Porto
Quando a gente fala de povos ciganos, a gente já está falando de forma plural. Nós não estamos falando apenas de um povo. Aqui no Brasil vocês conseguem encontrar três povos ciganos principais. Eu sempre coloco em evidência “principais” porque não quer dizer que são únicos.
Pensando como grupos, aqui no Brasil nós encontramos três grupos principais de ciganos. Nós temos os Calon, que é a etnia à qual eu pertenço, sendo o grupo mais proveniente e de maior predominância aqui no país. Nós temos o grupo dos Rom e nós temos o grupo dos Sinti. Além desses três grupos principais, nós temos os subgrupos.
E além desses três grupos principais, existem diversos outros grupos, não só aqui no Brasil como no mundo a fora. Então não dá para nos intitular como apenas um povo, tendo em vista essa gama de diversidade que temos no nosso meio.
Desmidificando
Quais são as principais dificuldades que os povos ciganos enfrentam hoje no Brasil?
Hátila Porto
Eu acredito que a maior dificuldade hoje dos povos ciganos no Brasil é o reconhecimento de seus direitos, tendo em vista que os ciganos não são reconhecidos nem na Constituição Brasileira, assim como outros povos, principalmente os povos originários. Então, assim, existem ciganos de sangue que estão dentro de políticas públicas, existem ciganos de sangue dentro do Ministério da Igualdade Racial, lutando em busca dos nossos direitos, mas ainda é muito pouco.
Quando se fala de estereótipo, acho que o maior estereótipo que o povo tem no imaginário popular é que todos os ciganos têm muitas condições, muitos bens. Na realidade, a maior parte dos ciganos não tem condições, às vezes, de viver nem o necessário que nós temos de viver nessa vida de sobrevivência.
Ciganos esses que moram em acampamentos com lonas furadas, acampamentos desregularizados não só com documentações, como também em propriedades sem água, sem energia, sem saneamento básico, sem comida, sem documentos pessoais regularizados, até mesmo certidão de nascimento e CPF. São pessoas que não conseguem ter acesso à saúde, são pessoas que não conseguem ter acesso a benefícios sociais.
Desmidificando
Você acredita que existem representações equivocadas
da cultura cigana por parte de pessoas que se dizem pertencentes a esta cultura?
Hátila Porto
Existe. Não querendo soar como um tipo de ofensa, muito longe disso, mas essa minha opinião, eu compartilho com outros ciganos também. Porque quem mais se intitula ser cigano, são povos que acabam cultuando ciganos espirituais, e por achar que estão acompanhados de ciganos espirituais, já os tornam ciganos de sangue. Há uma diferença muito grande dos ciganos espirituais, dos ciganos terrenos, dos ciganos de sangue. Os ciganos de sangue que sofrem o que é ser cigano no dia a dia.
Desmidificando
Você já recebeu comentários negativos por produzir esses conteúdos de conscientização?
Hátila Porto
Logo no início, quando eu iniciei na internet falando oficialmente sobre os povos ciganos, sobre a minha origem, recebi muito mais comentários negativos do que eu tenho hoje. No decorrer do meu período dentro das redes sociais, acabaram diminuindo.
Desmidificando
Qual mensagem você gostaria de deixar sobre os povos ciganos para quem vai ler essa reportagem?
Hátila Porto
Estude, porque o preconceito vem de uma falta de conhecimento. Nós somos seres humanos e não há por que ter essa diferença, nos distinguir com ódio, qualquer tipo de violência, até mesmo graves ameaças, sem um motivo prévio.
Então conheça os povos ciganos, busque saber sobre os povos ciganos. Porque só assim vai acabar aquele olhar de preconceito.
E que, após conhecer e saber de perto como são os ciganos de verdade, as pessoas passem a ter uma nova visão, principalmente uma visão mais empática.
A real cultura cigana
A cultura cigana, ao longo da história, foi preservada de maneira oral e transmitida através de gerações. Os ensinamentos, lendas, costumes e tradições chegam aos mais novos a partir de conversas, e principalmente, da influência dos mais velhos. Assim como os griôs da África Ocidental, os ciganos mais velhos transmitem ancestralidade, memória e pertencimento por meio da fala. Esses conhecimentos resistem às transformações globais e à ameaça de padronização cultural, que busca diminuir as práticas culturais consideradas inferiores.
A caminho do cerne da identidade cultural cigana, a língua romani é a expressão mais fiel dessa identidade. O romani é um idioma não territorial, ou seja, não está relacionado especificamente a um território e está presente, de maneira espalhada, pelo globo. Sua transmissão é majoritariamente oral, com a escrita em menor escala e sem padrões gramaticais consolidados. No cenário histórico, a coroa portuguesa chegou a proibir transmissão da língua romani, por medo de uma revolução contra o poder da colônia, já que os diálogos não eram compreendidos pelo público geral.
Nesse sentido, projetos como “Le Paramicha Le Narodoske - As estórias do povo cigano”, desenvolvido por Nicolas e Ingrid Ramanush, buscam resgatar as tradições em meio às transformações da sociedade atual. A dupla, junto a irmãos de acampamento, garimpa o conhecimento romani, e recentemente, registrou essas lendas em vídeos publicados no canal da Embaixada, como a lenda dos ovos de ouro, o cajueiro da cigana, os contos manush e a própria história da origem dos povos ciganos.
Outro aspecto importante são os ofícios tradicionais, que basicamente representam o modo de vida que alguns grupos baseiam a própria sobrevivência. Tradicionalmente, os ofícios são divididos em entretenimento, artesanato e comércio. Esse movimento é muito importante para a identidade desses grupos, já que alguns deles utilizam o nome da profissão como autodenominação. Por exemplo, os Aurari produzem joias, enquanto os Balanara produzem recipientes de madeira para a alimentação dos animais.
É válido também destacar a espiritualidade nas comunidades ciganas. Apesar de não existir uma religião oficial dos povos romani, eles incorporaram crenças e valores dos locais por onde passaram e estão presentes em diversas religiões atualmente. Portanto, dentre essas crenças, destaca-se a figura de Santa Sara Kali, considerada a padroeira dos povos ciganos. O dia de Santa Sara Kali é comemorado no Brasil no dia 24 de maio, na mesma data do Dia Nacional dos Ciganos, reforçando essa conexão e fé. A santa não é canonizada oficialmente pela Igreja Católica, mas a devoção a ela é presente em diversos lugares do mundo, entre múltiplos povos.
A peregrinação de Santa Sara Kali – que ocorre no dia da santa, na cidade de Saintes-Maries-de-la-Mer, na França – é uma das principais celebrações da comunidade, reunindo ciganos de diferentes nacionalidades para procissões, rituais, cantos, danças e a manifestação da cultura romani em seu estado mais puro. No Brasil, a peregrinação está presente em todo o território nacional, com destaque para Pouso Alegre, Santos e Rio de Janeiro.
Ressignificação
Por mais rica que a cultura cigana seja, ela segue sendo representada de maneira estereotipada. Uma simples classificação equivocada ignora toda a complexidade histórica, política, social e cultural desses povos, que convivem com a perseguição em diferentes meios desde os primórdios. É necessário conhecer a real cultura para evitar que as novas gerações continuem perpetuando pensamentos preconceituosos e sem fundamento.
O preconceito contra os povos ciganos é resultado de um longo processo histórico marcado pela exclusão. Ao longo dos séculos, estereótipos negativos foram construídos e reforçados por discursos políticos, religiosos e culturais, contribuindo para a marginalização dessas comunidades em diferentes partes do mundo. Conhecer a origem desses estereótipos é essencial, pois, muitas ideias ainda reproduzidas atualmente não refletem a realidade dos povos ciganos, mas sim construções históricas baseadas na desinformação e na exclusão assídua que perdura ao longo dos séculos.
A trajetória de Hátila Porto demonstra como a informação e a representatividade podem se tornar ferramentas importantes no combate ao preconceito contra os povos ciganos. Ao utilizar as redes sociais para compartilhar vivências e reflexões, a criadora do conteúdo contribui para desconstruir estereótipos históricos que ainda persistem na sociedade. Suas falas evidenciam que os povos ciganos são distintos, possuem identidades próprias e enfrentam desafios sociais muitas vezes excluídos pelo poder público e pela população em geral.
Além de reforçar a importância da preservação cultural através das novas gerações, Hátila também chama atenção para a necessidade de empatia, reconhecimento e acesso a direitos básicos. Sua mensagem final reforça que o preconceito nasce, principalmente, da falta de conhecimento.
Desmistificar os povos ciganos significa compreender que sua história foi frequentemente marcada por preconceitos, perseguições e representações distorcidas. Os ciganos constituem povos diversos, com identidades, tradições e modos de vida próprios, que preservam uma rica herança cultural apesar dos séculos de exclusão social e intolerância. Reconhecer a importância de uma cultura que resistiu ao tempo, às perseguições e à exclusão social é essencial para combater estereótipos e promover uma visão mais humana, plural e respeitosa sobre essas comunidades.


















